Notícias→Notícias→A VOZ ORGANIZOU UMA CIDADE: A 88 FM, PORTO SEGURO E UMA HISTÓRIA QUE SE CRUZA COM O RÁDIO
Imagem: IA GEMINI
A VOZ ORGANIZOU UMA CIDADE: A 88 FM, PORTO SEGURO E UMA HISTÓRIA QUE SE CRUZA COM O RÁDIO
Durante muito tempo, essa força teve uma identidade única, uma frequência dominante e uma presença praticamente onipresente na vida da
Por DA REDAÇÃO: PORTO BRASIL FM 100.9
19 de Maio de 2026 às 15:13
A VOZ ORGANIZOU UMA CIDADE: A 88 FM, PORTO SEGURO E UMA HISTÓRIA QUE SE CRUZA COM O RÁDIO
A história de Porto Seguro não pode ser explicada apenas pelas praias, pelo turismo ou pelos ciclos políticos que atravessaram a cidade ao longo das últimas décadas. Existe uma força menos visível, porém absolutamente determinante, que organizou o cotidiano, moldou comportamentos, criou oportunidades, influenciou eleições, revelou talentos e ajudou a construir a própria identidade da região: o rádio.
Durante muito tempo, essa força teve uma identidade única, uma frequência dominante e uma presença praticamente onipresente na vida da cidade e de toda a Costa do Descobrimento. Era a 88 FM, hoje Porto Brasil FM, uma emissora que não apenas ocupava o dial, mas estruturava a própria lógica de comunicação de Porto Seguro.
Antes da internet, das redes sociais e da fragmentação da informação, a comunicação era concentrada. E essa concentração transformava a 88 FM em algo muito maior do que um simples veículo. O que era dito ali ganhava peso de verdade coletiva, virava assunto de rua, pauta política, referência social.,
A rádio não apenas informava, ela organizava o discurso público, influenciava decisões e ajudava a definir o que seria discutido e consumido. Sua voz atravessava bairros, distritos e cidades vizinhas, alcançando Santa Cruz Cabrália, Itabela, Belmonte, Barrolândia e toda a região, conectando realidades distintas dentro de uma mesma escuta.
Esse protagonismo foi erguido ainda no final dos meados da década de 1990, quando a emissora passou a exercer um papel ativo na formação cultural da cidade. Promovia festivais grandiosos, organizava ou acompanhavam as históricas gincanas que, literalmente, paravam a cidade, incentivava artistas locais e induzia tendências. A população não apenas consumia cultura, consumia aquilo que a rádio legitimava como cultura.
Foi dentro desse ecossistema que a rádio também se transformou em uma verdadeira escola de formação. Muitos dos nomes que passaram por seus microfones tornaram-se figuras públicas, agentes políticos e referências no comércio local. Há exemplos irrefutáveis dessa transição, como radialistas que hoje são empreendedores, influenciadores, políticos ou personalidades representativas de sucesso, com negócios sólidos e frutos diretos de trajetórias iniciadas sob aquelas antenas. A emissora não apenas comunicava; ela projetava vidas.
A consolidação da emissora nos anos 90 também pode ser compreendida a partir do olhar de quem participou diretamente de sua implantação. O radialista Célio Brehmer integra a primeira equipe responsável por colocar a rádio no ar em 1995, ao lado de nomes como Showcolatte, Zé Arlindo, Silvio Ribeiro, Lúcia Mesquita e Natascha.
Trata-se de um núcleo fundador que não apenas estruturou a programação inicial, mas estabeleceu o padrão de comunicação que marcaria a emissora ao longo das décadas seguintes. Foi um período que coincide com o que muitos consideram a fase mais intensa e orgânica do rádio local, quando a relação com o ouvinte era direta, constante e praticamente insubstituível por qualquer outro meio.
A atuação desse grupo inaugural representa mais do que o início operacional da rádio; simboliza o momento em que a emissora se torna presença diária, contínua e estruturante na vida de Porto Seguro, inaugurando um ciclo que consolidaria sua influência cultural, social e política na região.
É exatamente nesse ponto que a minha história colide com a história da rádio.
Comecei a frequentar Porto Seguro no ano de 2003. Eu não morava aqui; vinha de Salvador, minha terra natal, e permanecia por períodos de dois a três meses trabalhando implacavelmente com a comunicação de campanhas políticas para depois retornar.
Essa rotina se repetiu em 2003, 2004 e 2008. Nesse intervalo, conheci a região de forma profunda. Não como um turista de passagem, mas como alguém que circulava e compreendia o território de verdade. Foi uma vivência prática, de rua, de sola de sapato.
Minha porta de entrada nesse contexto foi a política. Com apenas 17 anos, fui contratado junto com meu pai, o experiente repórter Guilherme Santos, um dos idealizadores do formato do Balanço Geral na Bahia, para atuar na comunicação da campanha de Jânio Natal à prefeitura e foi nas ruas que uma verdade se impôs: o verdadeiro centro de influência da cidade não estava apenas na política institucional. Estava no rádio.
Nesse cenário, vivi uma experiência que traduz a magnitude da 88 FM. Gravava músicas em casa, de forma totalmente artesanal num home studio, usando o nome artístico Vinícius Augusto. Criei um CD com faixas de seresta e arrocha, entre elas uma chamada "Descaradinha".
Por obra do destino, esse disco chegou às mãos do saudoso Reinaldo Júnior, um dos maiores e mais cativantes comunicadores da história da emissora. Ele decidiu tocar a música no seu Show da Manhã, entre as 4 e as 6 horas da madrugada. Não havia marketing, nem dinheiro envolvido. Havia apenas o rádio. E isso foi suficiente.
Em pouquíssimo tempo, a música estourou. Quando a coordenação da campanha de Jânio Natal ligou para a rádio para saber o que estava em alta, o ranking divulgado veio direto do clamor popular: Limão com Mel em primeiro, a febre nacional da Banda Calypso com a música Temporal em segundo e, logo depois, num improvável terceiro lugar, um soteropolitano desconhecido, eu, com "Descaradinha".
O impacto foi marcante. Passei a ser reconhecido nos restaurantes, nas ruas e nos distritos. As pessoas paravam para pedir fotos e autógrafos. Shows começaram a surgir com lotação máxima. Aquilo que era um mero sonho de adolescente ganhou dimensão real da noite para o dia, mas a força inabalável daquela emissora se sustenta na constelação de pessoas que fizeram dela o que ela foi. E é sobre algumas delas que irei falar agora.
Reinaldo Júnior, com um vozeirão imponente que eu nunca vi igual, era mais do que locutor, tornou-se meu amigo-irmão. Tive a honra de ter sua voz na abertura dos meus shows e estive com sua família no triste período em que ele enfrentou o câncer que o levou de nós.
Havia o jornalismo de confronto e a crítica afiada de Tarcísio Vieira, com quem tive naturais embates políticos, mas que marcou época e chegou a protagonizar uma entrevista histórica com o meu pai. A imponência e segurança da gestão de Roberta Caires que se tornou uma liderança imponente e experiente o que a fez se alavancar como candidata a prefeita de Porto Seguro e posteriormente eleita e reeleita vereadora de Salvador.
Há o Arielton Oliveira, gestor da parte comercial, líder comunitário, repórter de rua inteligente e sempre sorrindo, um faz tudo; a credibilidade da notícia com Aelson Souza; e a genialidade técnica de Ângelo Gilson e do incrível Alex Max, que acreditou tanto em mim que quis ser meu produtor.
Acompanhei o florescer de Sílvia Delmondes, que começou trabalhando conosco naquela campanha e se consagrou como uma das principais vozes da rádio regional. Senti o peso das análises de Cajurú; a irreverência inconfundível de Showcolate (o Chocolate de Porto Seguro) animando as barracas de praia; a energia constante de Ligeirinho; o faro político de Charles Sena, que virou vereador; e a solidez comercial de Flávio Porto. E era impossível ignorar a presença magnética de Moniquete, com seu cabelo rosa, irreverente, animada, ousada e com uma bagagem imensa que quebrava todos os padrões.,
Mas há uma camada dessa história que não aparece nos registros formais, nem nas lembranças mais superficiais. Ela vive nos relatos de quem esteve dentro da operação, de quem segurou a estrutura quando tudo ao redor tentava desmoronar.
Entre esses nomes está DJ Tuka, personagem direto dessa resistência silenciosa. Seu depoimento não romantiza nada, pelo contrário, expõe o que poucos viram e muitos sequer imaginam. Ele fala de uma rotina marcada por tensão real: episódios de violência, intimidação, profissionais sendo perseguidos, agredidos, forçados a deixar a cidade. Situações que colocavam em risco não apenas carreiras, mas vidas e famílias e, ainda assim, a rádio não parava.
Houve momentos extremos. Incêndios criminosos atingiram a estrutura da emissora mais de uma vez. Em um desses episódios, quando o silêncio parecia inevitável, a resposta veio de dentro: o próprio DJ Tuka retirou de sua casa mesa de som, cabeamentos e microfones para que a rádio voltasse ao ar. Não era apenas trabalho, era compromisso com algo maior do que qualquer estrutura física.
Outro capítulo marcante veio no período em que a emissora permaneceu cerca de quarenta dias sem programação musical, operando com um gerador instalado na entrada da rádio. Foi uma decisão estratégica em meio a disputas institucionais que envolviam o ECAD e divergências políticas da época, incluindo embates com o então cenário liderado pela gestão municipal a época. Ainda assim, a resposta não foi o recuo: foi a reinvenção. A rádio seguiu no ar com programação jornalística contínua, mantendo sua presença e sua influência intactas.
Esses episódios ajudam a dimensionar algo que vai além da comunicação. Revelam o nível de entrega de quem construiu essa história. Em um contexto onde a pressão era concreta e constante, muitos daqueles comunicadores atuaram como verdadeiros guardiões da emissora, sustentando no ar não apenas uma frequência, mas um elo vital com toda a região.
São histórias como essa, muitas ainda preservadas apenas na memória ou em acervos que resistem ao tempo, que explicam por que a Porto Brasil FM não foi apenas uma rádio. Foi, em muitos momentos, um ato contínuo de resistência.
Com o passar dos anos, o mundo virou do avesso. A internet engoliu o analógico, as redes sociais cresceram, a TV local se expandiu e novas emissoras legalizadas surgiram. A 88 FM precisou se reinventar: transformou-se na Porto Brasil FM 100.9 e mergulhou no ambiente digital. Ainda assim, o que desafia a lógica moderna é que ela continua reinando. Mantendo esmagadores 90% da audiência máxima comercial, ela prova que sua essência é maior que a tecnologia.
E é absolutamente impossível compreender essa sobrevivência, esse domínio e todo esse legado sem reconhecer a grandeza do seu mais qualificador e praticamente criador dessa fase de poderio: Ubaldino Júnior. Mais do que o proprietário da rádio, Ubaldino sempre foi o "patriarca master" da emissora, um homem dotado de um dom de comunicação absurdo e incontestável.
Foi a visão dele que transformou a rádio em uma ferramenta de precisão na formação da opinião pública. Sua experiênxia e tão reconhecida que até prefeito de Porto Seguro se tornou. Sob sua batuta, a emissora não apenas acompanhava e acompanha os fatos; ela ditava os rumos e as regras da cidade.
Ubaldino compreendeu, antes de qualquer um, que o rádio era a alma do povo, e usou esse talento para criar uma instituição que, embora tivesse um posicionamento político inabalável, nunca abriu mão da ética, de dar oportunidades claras e de valorizar os talentos da terra. A sua verdadeira grandeza reside na genialidade de ter arquitetado um colosso de comunicação que influenciou cada gincana, cada debate e cada voto na região ao longo de décadas, e que se mantém de pé, imbatível, até hoje.
Minha rotina de ponte-aérea mudou quando conheci minha esposa em 2012, que já morava em Porto Seguro desde os 8 anos de idade, decidindo me mudar em definitivo para Porto Seguro em 2013. O jovem Vinícius Augusto deu lugar a Vinícius Brandão. Segui por outros mares: vim formado em jornalismo, construí uma base sólida como empresário do turismo, presidi a CDL e assumi a diretoria da ABIH Bahia. Em 4 de dezembro de 2025, recebi a minha maior honraria: o título de Cidadão de Porto Seguro, indicado pela vereadora Lívia Bittencourt. Agora aos me tornar um cidadão e morador compreendo com mais clareza a grandeza da Porto Brasil FM.
Ao olhar para trás e rever toda essa jornada, fica cristalino que essa crônica não é sobre uma empresa radiofônica, é sobre a maior empresa de comunicação que Porto Seguro já conheceu. A Porto Brasil FM não é apenas uma emissora. É uma instituição que ajudou a moldar Porto Seguro. Mais do que transmitir som, ela construiu histórias. E, no meu caso e no de tantos outros, mudou destinos.
Usamos cookies essenciais para o funcionamento do site e cookies não essenciais para análise e melhorias. Você pode aceitar ou recusar o uso de cookies não essenciais.